
Certa vez, assistindo a uma palestra no centro espírita que eu frequentava, a palestrante conta uma história. Enquanto realizavam trabalhos de caridade, distribuindo quentinhas a pessoas sem-teto, os irmãos espíritas se depararam com a seguinte cena: três moradores de rua se engalfinhavam numa disputa por uma lata de goiabada. Vazia, velha e enferrujada. Imediatamente, intervieram na pendenga e lhes indagaram: -Por que estão brigando por uma lata velha? Ao que os sem-teto responderam: -Porque a quentinha é mole e a lata serve de apoio para comermos. Então, naquele contexto, aquela lata era valiosa para eles.
Contudo, a palestrante nos convidou a uma reflexão mais profunda. Aquela lata não significa algo que possa contribuir para o aprimoramento espiritual daqueles indivíduos, constituindo-se como uma bagagem que não se carrega para além dessa vida material, terrena e passageira que vivemos. E nos lançou a seguinte pergunta, em tom de desafio: -Por quantas latas velhas vocês já brigaram na vida?
Aquelas palavras me deixaram intrigada e saí daquele encontro refletindo sobre o sentido da mensagem. Claro que a intenção da palestrante era focar nos aspectos importantes para a evolução espiritual do ser humano. Aqui, pretendo dar um enfoque mais amplo a essa questão das latas velhas.
Pensemos em quantas vezes já nos ativemos a rusgas infantis, a teimosias que não levam a lugar algum, apenas para provar um ponto de vista. Em cada ocasião que nos desentendemos com alguém querido – ou mesmo com qualquer pessoa de nossa convivência – por coisas banais. Tanto desperdício de tempo, tanta mágoa criada a troco de nada… Poderiam ter sido evitados caso não estivéssemos apegados à disputa inócua pelas latas velhas, se direcionássemos nossa energia para o que realmente é importante: cultivarmos as amizades, nos esforçarmos por sermos pessoas melhores, nos dedicarmos a fazer o bem.
Nessa hora, lembro-me do ensinamento do meu pai: é melhor ser feliz do que ter razão. Até porque, como li recentemente pela internet, mesmo que não custe dinheiro, se lhe faz gastar tempo, não é de graça. O tempo não volta e não pode escoar pelas mãos sem que nos permitamos a oportunidade de aproveitá-lo com a essência da vida.
E você, até quando vai ficar brigando por latas velhas?